Sobre a Resistência

A resistência age sem pedir licença
A resistência acompanha todo ser humano. Ela faz parte do funcionamento do inconsciente e age independente à nossa vontade.
Quase nunca se apresenta como resistência. Aparece como cansaço, como falta de tempo, como uma boa razão para deixar para depois, como um assunto que de repente perde a graça, como uma piada que desvia a conversa. Quem resiste raramente sabe que está resistindo.
Freud e a barreira que ninguém vê
Freud a descobriu ao observar que certas lembranças e sentimentos encontravam uma barreira para chegar à consciência. Nos primeiros trabalhos com Breuer, usava a hipnose e a catarse para trazer à tona o que estava esquecido. O método tinha limites: nem todos os pacientes eram hipnotizáveis e as melhoras costumavam durar pouco. Quando passou a atender o paciente desperto e a pedir que ele recordasse, notou que algo se opunha ativamente à lembrança. A força que um dia havia afastado aquelas ideias da consciência voltava a agir dentro do tratamento.
Aos poucos, o que parecia um obstáculo se tornou matéria de trabalho. Em 1912, Freud descreveu a transferência como um dos principais instrumentos da resistência. Em 1914, mostrou que o paciente repete em ato aquilo que não consegue recordar, e que essa repetição precisa de tempo para ser elaborada. Em 1926, em Inibição, sintoma e angústia, organizou cinco formas de resistência. Três vêm do ego: a de recalque, a de transferência e a que nasce do ganho secundário da doença, quando o sintoma traz benefícios que a pessoa teme perder. A quarta vem do id e é a compulsão à repetição. A quinta vem do superego, na forma de culpa e necessidade de punição, e pode levar à reação terapêutica negativa.
Um psiquismo que protege
O psiquismo faz isso porque a função dele é proteger. O que um dia foi doloroso demais para sentir ou para dizer ficou guardado longe da consciência, e a resistência mantém essa guarda. Ela preserva um equilíbrio que, mesmo custoso, já conhecemos e sabemos habitar.
Daí o apego a certos sofrimentos: o conhecido tem endereço, o novo ainda não tem. A pessoa permanece na relação que desgasta, repete o mesmo padrão, adia a decisão que sabe ser necessária. O sofrimento familiar oferece previsibilidade e uma identidade, e muitas vezes traz benefícios discretos, como atenção dos outros ou uma boa justificativa para não arriscar.
Essa guarda costuma ter origem na infância. A criança que aprendeu a não chorar, a se conter, a agradar ou a se endurecer fez isso com os recursos que tinha e no ambiente que encontrou. A estratégia funcionou, foi repetida e acabou virando parte de quem ela é.
Reich e o caráter
Reich observou que a resistência ganha forma com o tempo. Os modos de se defender se repetem, se organizam e viram jeito de ser, o que ele chamou de caráter. Aparece no tom de voz, no olhar, na maneira de falar e de silenciar, na respiração e na postura. O corpo guarda o que a história deixou: ombros que sobem, peito que se contrai, mandíbula que segura.
Análise do Caráter, publicado em 1933, nasceu do seminário técnico que Reich conduzia em Viena. Ele notava que muitos analistas interpretavam o conteúdo em profundidade enquanto o paciente seguia exatamente igual. Sua proposta foi analisar as resistências antes dos conteúdos, na ordem em que aparecem, começando pela transferência negativa latente. Formulou então a resistência de caráter, que se manifesta no sorriso fora de lugar, na polidez excessiva, na frieza, na docilidade constante. O caráter inteiro trabalha como defesa, e ele o chamou de couraça caracterial. Para Reich, o modo como alguém diz algo revela mais do que o assunto de que fala.
Ele observou também que a couraça protege de uma dor antiga e, ao mesmo tempo, limita o prazer. Um organismo contido há muito tempo pode sentir como ameaça o aumento de excitação e de vitalidade que acompanha a mudança. Reich chamou isso de angústia de prazer. Ela ajuda a entender por que algumas pessoas pioram justamente quando começam a melhorar.
Se o caráter é uma defesa organizada, ela está inscrita no organismo, na musculatura crônica, na respiração contida, na postura. Reich passou a trabalhar com o corpo, e dessa linha vieram a vegetoterapia e os desenvolvimentos de Navarro e de Lowen.
O que a ciência observa hoje
O termo “resistência” perdeu espaço no vocabulário de várias abordagens, mas o fenômeno segue sendo estudado sob outros nomes:
Safran e Muran pesquisam as rupturas da aliança terapêutica, momentos em que o paciente se retrai ou confronta o terapeuta. Seus dados indicam que o reparo dessas rupturas se associa a melhores resultados, o que coloca a resistência dentro da relação entre os dois. Miller e Rollnick, na entrevista motivacional, mostram que boa parte do que parece resistência é resposta à postura de quem conduz: quanto mais se pressiona, mais a pessoa se defende.
Há também evidências experimentais sobre o que Freud chamou de recalque. Nos estudos de Anderson e Green, com o paradigma think/no-think, o córtex pré-frontal reduz a atividade do hipocampo para impedir que uma lembrança chegue à consciência, e esse controle tem um custo neural mensurável. Desde o trabalho de Nader, Schafe e LeDoux, sabe-se ainda que memórias reativadas ficam temporariamente maleáveis, o processo de reconsolidação. Abordagens como a terapia de coerência, de Ecker, partem daí e leem a resistência como a proteção de um esquema que ainda faz sentido para quem o carrega. Ele só muda quando é acessado e encontra uma experiência nova que o contradiga.
Na linguagem, Wilma Bucci propôs a teoria do código múltiplo. A emoção circula num sistema subsimbólico, ligado ao corpo e às imagens, e a fala circula em outro, o verbal. A resistência aparece quando os dois se desconectam: o discurso é fluente e a emoção não comparece. Os estudos de Pennebaker sobre marcadores linguísticos, como o uso de pronomes, tempos verbais e palavras emocionais, mostram que a maneira de falar acompanha o grau de evitação. Por outro caminho, confirmam a intuição de Reich sobre a forma.
Olhar com curiosidade
Vale olhar para a resistência com curiosidade e sem julgamento. Ela nasceu como inteligência de sobrevivência e carrega a memória de uma época em que se proteger era necessário. Compreendê-la é um jeito de conhecer a própria história.



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