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Narcisismo - a afirmação do eu e suas sombras

Foto do escritor: leandrofigueiredop
leandrofigueiredop
9 de out.
2 min de leitura

O lado saudável

Sem um certo narcisismo não existe eu. É ele que nos permite dizer "eu penso assim", ocupar nosso lugar no mundo e acreditar que nossas ideias merecem ser ouvidas. Dele vêm a autoestima, a criatividade e a coragem de nos expor.

Quem ensina, escreve, cria ou lidera depende desse impulso de se afirmar e de espalhar o que pensa. Quando o narcisismo está bem constituído, a pessoa aguenta uma crítica sem se desfazer e reconhece o próprio valor sem precisar rebaixar ninguém.

Quando ele vira defesa

O mesmo narcisismo pode trabalhar contra nós. O inconsciente protege a imagem que fazemos de nós mesmos e, para isso, muitas vezes esconde justamente o que mais atrapalha. Vejo isso no consultório e já vi na minha própria terapia: os traços que mais nos prejudicam são os que menos enxergamos. A pessoa sente o efeito nos relacionamentos, no trabalho, no corpo, mas não liga esses efeitos ao seu jeito de ser.

Admitir um defeito ameaça a imagem que construímos, então fica mais fácil culpar o outro, a situação ou a má sorte. Isso não é mentira deliberada, a pessoa realmente não vê. Na linguagem reichiana, é a couraça protegendo uma ferida antiga, e quanto mais frágil o núcleo, mais rígida a couraça. Como o que não se vê não muda, o mesmo padrão volta em várias áreas da vida.

Como a terapia ajuda a enxergar?

Ninguém enxerga o próprio narcisismo tóxico por ter sido confrontado ou convencido. Quando alguém aponta o traço de fora, a defesa se reforça, porque a pessoa se sente atacada. O que funciona é uma relação em que ela se sinta segura o bastante para baixar a guarda por conta própria.

Na terapia isso acontece aos poucos. O terapeuta não julga, e isso já diminui a necessidade de se defender. A pessoa começa a notar o que repete: a mesma briga, o mesmo afastamento, a mesma frustração. Na abordagem reichiana, o corpo também fala. A tensão no peito, a respiração presa e a postura rígida mostram a defesa em ação, e senti-la no corpo costuma convencer mais do que qualquer explicação.

Por isso a descoberta dói menos. Ela acontece no ritmo da pessoa, sem ninguém forçar. Vem acompanhada de alguém que não se afasta diante do que aparece. E permite entender que aquele traço nasceu como proteção, numa época em que era necessário, o que troca a vergonha por compreensão. Quem se vê assim não precisa se destruir para mudar. Aos poucos a couraça afrouxa, a pessoa passa a se afirmar sem precisar se esconder de si mesma, e as relações ficam menos tensas.



 
 
 

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