O Sintoma não é o Inimigo: Uma visão através de Freud, Reich e Jung
- leandrofigueiredop

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Muitas vezes, olhamos para os nossos sintomas (seja uma ansiedade persistente, uma fobia, uma insônia ou uma dificuldade relacional) como intrusos indesejados. A reação imediata é querer "arrancá-los" a qualquer custo. Mas, sob a ótica da psicologia profunda, o sintoma não é um erro do sistema. Ele é uma solução.
O sintoma é uma linguagem cifrada. Ele resolve, silenciosamente, algo que não conseguimos colocar em palavras. Ele denuncia que existe uma "tampa" segurando algo que precisa ser vivido.
Para entender por que não devemos apenas "eliminar" o sintoma sem antes escutá-lo, vamos dialogar com três visões fundamentais: Freud, Reich e Jung.
1. A Visão Freudiana: O Enigma e o Retorno do Recalcado
Para Sigmund Freud, o sintoma é uma formação de compromisso. Imagine que existe um desejo pulsante dentro de você, mas esse desejo entra em conflito com suas normas morais ou com a realidade externa. Para evitar a angústia desse conflito, você o "esquece" (recalca).
Porém, nada no inconsciente morre. Esse desejo volta disfarçado: ele retorna como sintoma.
Nesta visão, o sintoma é um enigma a ser desvendado. Ele ocupa o lugar de uma palavra que não foi dita, de um trauma que não foi elaborado. A lição de Freud é clara: não tente apenas silenciar o incômodo. Tente decifrar o que ele está tentando comunicar. Qual é a verdade inconsciente que ele esconde?
2. A Visão Reichiana: A Armadura e a Sobrevivência
Wilhelm Reich expande essa compreensão para o corpo e para a estrutura do caráter. Ele nos ajuda a pensar no indivíduo que aprendeu a se fechar como um "cofre" para sobreviver emocionalmente.
Para Reich, esse fechamento cria uma Couraça de Caráter. Se, durante o nosso desenvolvimento, o ambiente foi hostil ou nossas necessidades afetivas foram negadas, nós "enrijecemos" nossa musculatura e nossa postura para não sentir a dor do abandono ou da rejeição.
O sintoma, aqui, é a rigidez. A mesma armadura que protege do ataque externo impede a pessoa de sentir o prazer, a entrega e a conexão. Contudo, essa defesa foi necessária em algum momento. Tentar quebrá-la à força geraria um desamparo insuportável. O trabalho terapêutico, portanto, é flexibilizar essa couraça, permitindo que a vida volte a circular no organismo.
3. A Visão Junguiana: O Chamado para a Totalidade
Enquanto Freud olha para a causa (o passado) e Reich para a estrutura (a defesa), Carl Jung nos convida a olhar para a finalidade (o futuro). Para Jung, o sintoma tem uma função teleológica.
O sintoma não é apenas um problema; é um chamado da alma. Ele aparece, muitas vezes, quando estamos vivendo uma vida muito estreita, unilateral ou desconectada da nossa essência (o Self). O sintoma vem para dizer: "Ei, o caminho não é por aqui. Falta algo vital para sua integridade."
O sofrimento, nesta ótica, tenta equilibrar a psique, obrigando o sujeito a parar e olhar para dentro. O sintoma força o início do processo de Individuação — o caminho para se tornar quem realmente se é.
Conclusão: Tirar o Sintoma ou Escutá-lo?
Existe um perigo real em tentar retirar o sintoma bruscamente. Ele serve, de alguma forma, para organizar, sustentar e estruturar a realidade do sujeito diante da angústia. Retirá-lo sem que a pessoa tenha construído outra forma de lidar com a vida pode levar a um colapso ainda maior.
A análise não visa "consertar" o indivíduo como se fosse uma máquina quebrada, mas ouvir o que o sintoma tem a dizer para decifrar sua função.
O objetivo é inserir um ponto de interrogação onde antes havia apenas repetição. É convidar o sujeito a mudar sua narrativa, criar novas formas de ser e, finalmente, tornar a "muleta" do sintoma desnecessária, não porque foi arrancada, mas porque as próprias pernas se fortaleceram.




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