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As Lentes de Freud: A Compulsão à Repetição e o Amor Infantil

  • Foto do escritor: leandrofigueiredop
    leandrofigueiredop
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura

Sigmund Freud nos deu uma das chaves mais importantes para entender por que insistimos no erro: a compulsão à repetição.

Freud observou que tendemos a repetir, na vida adulta, os padrões de relacionamento que vivemos na primeira infância, especialmente os traumáticos ou insatisfatórios. O inconsciente não conhece o tempo cronológico. Para ele, o passado está acontecendo agora.

Se, durante a formação da sua personalidade, o amor foi algo difícil de conquistar; se você teve que "performar" para ser notado por um pai distante ou uma mãe deprimida; se o afeto era condicional ou escasso, sua psique registrou uma equação perigosa: Amor = Esforço e Sofrimento.

Quando adultos, encontramos alguém que nos ignora (assim como aquele cuidador lá atrás), o inconsciente "acende uma luz". Ele reconhece aquele cenário familiar. A tentativa desesperada de agradar quem nos ignora não é sobre aquela pessoa atual; é uma tentativa infantil e anacrônica de finalmente "ganhar" a batalha perdida na infância. É a esperança inconsciente de que: "Se eu me esforçar o suficiente desta vez, o papai/mamãe finalmente vai me olhar e me amar."

Quem nos trata bem e está disponível não se encaixa nesse script interno. O amor fácil parece suspeito ou entediante porque não ativa o nosso "sistema de luta" pela validação.


As Lentes de Reich: A Couraça e a Falta de Contato

Wilhelm Reich, discípulo dissidente de Freud e pai das terapias corporais, traz essa discussão para a realidade energética e física.

Para Reich, a saúde é a capacidade de estabelecer contato vivo e pulsante com o outro e com o mundo. No entanto, quando crescemos em ambientes frios, onde nossos impulsos de amor e nossa necessidade de ser vistos foram ignorados ou punidos, nós nos "encouraçamos". Criamos defesas musculares e energéticas para não sentir a dor da rejeição.

A pessoa que busca agradar quem a ignora muitas vezes desenvolveu um traço de caráter (que pode ter nuances orais ou masoquistas) onde a sua energia vital está voltada para "fora", tentando desesperadamente obter uma reação do ambiente para se sentir viva.

O outro que ignora, geralmente, é alguém com uma couraça rígida ou esquizoide. Uma pessoa "congelada", incapaz de troca afetiva genuína.

O paradoxo reichiano aqui é: a pessoa carente tenta, com sua energia "pegajosa" e seu excesso de doação, "derreter" a couraça de gelo do outro. É uma tentativa desesperada de forçar um contato que nunca acontece. Quanto mais o outro se fecha (ignora), mais o "agradador" se esforça, pois o silêncio do outro ecoa o vazio insuportável de sua própria infância sem contato.

Agradar o indiferente torna-se uma luta energética para provar a própria existência diante de um espelho que não reflete nada.


Rompendo o Ciclo

A tragédia desse padrão é que ele é autorrealizável. Ao escolhermos pessoas incapazes de nos retribuir (por suas próprias limitações e couraças), confirmamos a nossa crença infantil de que não somos dignos de amor, ou de que o amor é um eterno sacrifício.

O caminho da cura passa por dois movimentos difíceis, mas libertadores:

  1. Reconhecer o Script (Freud): Trazer para a consciência que a pessoa que nos ignora hoje é apenas um "ator" interpretando um papel antigo na nossa história. Não é sobre ela, é sobre o que ela representa.

  2. Suportar o Bom (Reich): Aprender a sustentar energeticamente o contato com quem está disponível. Para quem se acostumou com a luta, a paz do amor recíproco pode parecer estranha, até ameaçadora. É preciso reaprender a respirar e relaxar na presença de quem nos quer bem, sem precisar "trabalhar" por isso.


Deixar de tentar agradar quem nos ignora não é apenas uma mudança de comportamento; é um ato profundo de reestruturação interna, onde decidimos que merecemos mais do que as migalhas de atenção pelas quais lutávamos no passado.



 
 
 

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